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Reportagem  
   
Em cartaz: A Aventura das Trilhas Sonoras
Lucas Colombo
   
Leo.Kur

     Oh, pedaço de mim, oh, metade arrancada de mim...

     O cenário é a Lapa, um bairro da zona central do Rio de Janeiro, famoso pela boemia e pela malandragem (atividades intimamente ligadas). O período é o dos anos 1940. A voz que canta estes versos pungentes é a de Teresinha, filha de Duran, o dono dos bordéis da região. O destinatário da elegia é o contrabandista Max Overseas, seu namorado e rival de Duran. Neste momento, ela o está visitando na cadeia, mas precisa ir embora. A peça é "Ópera do Malandro", de Chico Buarque. A canção, Pedaço de Mim, uma das mais célebres do compositor e escritor carioca.

     Uma trilha sonora deve, a princípio, funcionar como parte integrante da peça ou do filme a que serve. Deve ser, de certo modo, um dos personagens da história. Por razões que a própria razão desconhece, no entanto, tal como Max Overseas é arrancado de Teresinha, algumas canções compostas para teatro ou cinema são destacadas de seu contexto original – a peça ou o filme – e ganham uma vida independente. Este é um fenômeno observado em vários gêneros cinematográficos e teatrais: da comédia ao drama, da ópera ao teatro de revista, do thriller ao musical. Pedaço de Mim é uma das várias canções que Chico Buarque compôs para cinema ou teatro que acabaram desenvolvendo carreira própria, separada das histórias que lhes deram origem. A versão mais lembrada da música não é a da "Ópera", mas, sim, a de Zizi Possi. A cantora gravou-a no seu segundo disco, em 1979, um ano depois do lançamento da peça. Pedaço de Mim, porém, já foi cantada por Gal Costa, Francis Hime, Elba Ramalho (ok, vamos adiante...), na versão cinematográfica da ópera, e pelo próprio Chico Buarque.

     Chico é um grande compositor de trilhas sonoras (também). À exceção daquelas feitas para suas próprias peças de teatro, o carioca acumula, entre as trilhas que criou, mais de 50 canções só para cinema. A maioria delas – 32 – está reunida na coletânea "Chico no Cinema", um dos grandes álbuns de 2005, lançada pela Universal, em julho. Lá estão algumas músicas que nem o maior conhecedor da obra buarqueana imagina (ou, pelo menos, não tem tanta certeza) que são tema de filmes. Eu te Amo, por exemplo, foi composta para o filme homônimo de Arnaldo Jabor, com Sônia Braga e Paulo César Pereio no elenco, em 1980. Já Mil Perdões e Samba do Grande Amor, ambas de 1983, foram feitas, respectivamente, para "Perdoa-me por te Traíres", de Braz Chediak, e "Para Viver um Grande Amor", de Miguel Faria Jr.

     Uma das mais brilhantes canções de Chico tem origem em um roteiro de cinema. O Que Será, de 1976, é tema de "Dona Flor e Seus Dois Maridos", adaptação de Bruno Barreto para o romance de Jorge Amado. O filme é o maior sucesso do cinema nacional, com mais de 12 milhões de espectadores. A composição de Chico, entretanto, é pouco vinculada à história do triângulo amoroso de Florípedes (Sônia Braga, no auge da beleza) com Vadinho (José Wilker), seu marido que volta depois da morte, e Teodoro (Mauro Mendonça), farmacêutico com quem ela se casa depois de enviuvar. O Que Será tem três versões, todas apresentadas no decorrer do filme, para marcar passagens diferentes da história: Abertura, À Flor da Pele e À Flor da Terra. As duas últimas foram gravadas por intérpretes como Nara Leão e Milton Nascimento e são hoje conhecidas mais como “músicas do Chico” do que como “músicas do Dona Flor”, mesmo que tenham muito a ver com o enredo do filme. À Flor da Pele, por exemplo, interpretada na película por Simone (ok, vamos adiante...), é o fundo musical das cenas sensuais de Flor e Vadinho. Não à toa: sua letra fala de desejo (“O que será, que será/ Que dá dentro da gente e que não devia/ (...) Uma aflição medonha me faz implorar/ O que não tem vergonha, nem nunca terá”).

     Outra grande música do compositor carioca que foi elaborada para trilha sonora, mas tornou-se mais célebre que o argumento do qual se originou, é Mulheres de Atenas, também de 1976. A canção foi escrita em parceria com o dramaturgo Augusto Boal, o idealizador do Teatro do Oprimido, para a peça "Lisa, a mulher libertadora", dele. O texto era uma adaptação de "Lisístrata", de Aristófanes, grande representante da comédia grega antiga. A peça retratava uma rebelião de mulheres atenienses, que, sob a liderança da personagem-título, resolvem fazer greve de sexo, para forçar seus maridos a acabarem com a Guerra do Peloponeso.

     Mulheres de Atenas faz referências à sociedade do período clássico da Grécia e também a alguns episódios da Mitologia grega. O trecho “Mas no fim da noite, aos pedaços/ Quase sempre voltam pros braços/ De suas pequenas/ Helenas”, por exemplo, remete à Helena, esposa do rei Menelau. Ela, como conta a História, foi raptada pelo príncipe de Tróia, cidade rival à Esparta. O ato foi o estopim da famosa Guerra de Tróia, promovida pelos gregos para resgatar a rainha seqüestrada e destruir os rivais. O maior motivo de polêmica em relação a Mulheres de Atenas, contudo, são as acusações, feitas à época de seu lançamento, de que sua letra seria uma ode à submissão feminina. O próprio Chico Buarque, em entrevista, declarou que a idéia era exatamente a oposta: “Eu disse: mirem-se no exemplo daquelas mulheres que vocês vão ver no que vai dar”.

Trilhas caetânicas

     Caetano Veloso é outro gênio da música mundial que viu suas composições para cinema ganharem vida independente das imagens a que estão ligadas. Poucos sabem, por exemplo, que Luz do Sol, um de seus maiores sucessos, foi escrita para "Índia, a Filha do Sol", de Fábio Barreto. O filme de 1981 conta a história de um cabo do Exército, interpretado por Nuno Leal Maia, que é encarregado de resolver algumas irregularidades em um garimpo de Goiás. Lá, uma índia, vivida por Glória Pires, apaixona-se por ele. A voz de Caetano, entoando “Luz do sol/ Que a folha traga e traduz/ Em verde novo/ Em folha, em graça, em vida, em força, em luz”, embala o romance entre os dois personagens. "Índia, a Filha do Sol" não figura entre as grandes produções do cinema brasileiro, mas a canção é uma das pérolas da MPB. Fábio Barreto e Caetano voltaram a trabalhar juntos em 1995, em "O Quatrilho".

     Caetano também é o autor de Merda, música que provocou intensa polêmica quando foi lançada, em 1986. Merda foi composta naquele ano para a comédia-musical "Miss Banana", dirigida por Wolf Maia, e teve sua execução proibida pela Censura (isto que o então presidente José Sarney havia chegado ao poder para redemocratizar o país). O título da música refere-se à expressão utilizada pelo pessoal de teatro para desejar boa sorte antes de começar um espetáculo. Na peça, a atriz Regina Duarte entrava em cena dançando e cantando: “Nem a loucura do amor, da maconha, do pó, do tabaco e do álcool/ Vale a loucura do ator quando abre-se em flor sob as luzes no palco/ Bastidores, camarins, coxias e cortinas/ São outras tantas pupilas, pálpebras e retinas/ Nem uma doce oração, nem sermão, nem comício à direita ou à esquerda/ Fala mais ao coração do que a voz de um colega que sussurra ‘merda’”. Genial. No livro "Noites Tropicais", o jornalista e produtor musical Nelson Motta lembra que tentou incluir a canção no programa "Chico e Caetano", que dirigia para a Rede Globo, em 1986. A própria emissora encarregou-se de cortar Merda do repertório do show, por considerá-la ‘agressiva e imprópria’. A música, porém, acabou saindo no disco com os melhores momentos do programa, interpretada pelos dois apresentadores-cantores, acompanhados da roqueira Rita Lee.

     Caetano está, atualmente, fazendo shows ao lado de Milton Nascimento, como parte da divulgação do filme "O Coronel e o Lobisomem", de Maurício Farias, para o qual o baiano e o mineiro compuseram a trilha. No repertório do espetáculo, apenas canções que os dois fizeram para cinema. Entre elas, Luz do Sol, A Terceira Margem do Rio – parceria dos músicos para o filme homônimo de Nelson Pereira dos Santos, em 1993 – e A luz de Tieta, composta por Caetano para "Tieta do Agreste", de Cacá Diegues (1996).

Rock, rollando pelas trilhas

     O cinema e o teatro internacionais também são experts na arte de criar filhos/trilhas sonoras que fogem de casa. Todos os gêneros musicais possuem algum caso assim no currículo, mas, já que o assunto é rebeldia, nada mais adequado que falar de rock. A música-tema de "A Primeira Noite de um Homem" (The Graduate), Oscar de Melhor Direção para Mike Nichols em 1967, por exemplo, dificilmente é associada ao filme, apesar de mencionar o nome de uma personagem já no título. Mrs. Robinson, da dupla folk Simon & Garfunkel, é o fundo musical para as peripécias amorosas do jovem Benjamin (Dustin Hoffman, no início da carreira) com Sra. Robinson (a bela Anne Bancroft), uma mulher mais velha do que ele. A primeira noite é bastante cultuado, mas a música tornou-se um sucesso maior. No Brasil, Bete Balanço, uma das melhores composições de Cazuza, também é, hoje, mais lembrada do que o filme de Lael Rodrigues, realizado em 1984. A canção foi o primeiro grande sucesso da banda Barão Vermelho, da qual Cazuza era vocalista antes de partir para a carreira solo, em 1985.

All that jazz

     Nenhum outro estilo, talvez, apresente tantos casos de músicas-tema rebeldes como o Jazz. Pela riqueza rítmica, pelas harmonias envolventes, pelas melodias geniais, o gênero de Louis Armstrong e Duke Ellington já foi trilha sonora de diversos filmes e peças e, claro, algumas vezes as canções descolaram-se do roteiro. É o caso, por exemplo, dos temas escritos pelo alemão Kurt Weill para seus musicais.

     O músico erudito-jazzístico compunha óperas com o dramaturgo Bertolt Brecht em Berlim – a mais conhecida é "Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny", de 1930 –, até que uma outra ascensão, desta vez a do Partido Nazista, obrigou-o a fugir para os Estados Unidos. Acabou tornando-se um dos maiores compositores da Broadway. Do musical "Um Toque de Vênus" (One touch of Venus), de 1943, para o qual compôs todas as canções, faz parte Speak Low, um dos maiores standards do jazz. A música, que tem letra do poeta Ogden Nash, foi depois gravada por Billie Holiday, Chet Baker, Gerry Mulligan e Gato Barbieri, entre outros. No Brasil, a cantora Marisa Monte a interpretou, em inglês e com ritmo de bossa nova, no seu disco de estréia, "MM", de 1989.

     "Um Toque de Vênus" apresenta a história de Rodney, um homem que dá vida a uma estátua (quem será?), ao colocar no dedo dela a aliança que comprara para a namorada. Vênus, interpretada na primeira versão por Mary Martin, passa então a persegui-lo. O homem, por sua vez, encanta-se com os prazeres que a ex-estátua proporciona. Speak Low é, na peça, um apelo de Vênus para que ela e Rodney aproveitem o romance: “Speak low when you speak, love/ Our summer day withers away/ Too soon, too soon/ I feel wherever I go/ That tomorrow is here/ Tomorrow is near/ And always too soon” (algo como “Fale baixo quando você fala, amor/ Nosso dia de verão se esvai/ Cedo demais/ Eu sinto, onde quer que eu vá/ Que o amanhã está aqui, próximo/ E tudo acontece sempre muito rápido”). Com Billie Holiday cantando isto, porém, quem se importa que Speak Low era tema de uma peça de teatro?

     Ainda no terreno da Broadway, "Porgy and Bess", de 1935, chama atenção não apenas por ter sido a primeira ópera a utilizar elementos do jazz e apresentar personagens negros. Destaca-se também pela quantidade de standards que gerou. Músicas como Summertime (sim, aquela que Janis Joplin canta), It Ain’t Necessarily So e I Loves You, Porgy são algumas árias da ópera com as quais, até hoje, muitos intérpretes se deliciam. Summertime, por exemplo, já foi gravada por Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Sarah Vaughan, Miles Davis e John Coltrane. E It Ain’t Necessarily So, com sua melodia dançante, faz-se presente no repertório de vários músicos de soul, como a cantora Aretha Franklin. Jamie Cullum, o novo destaque do jazz pop, gravou a canção no disco "Pointless Nostalgic", lançado em 2002.

     Composta pelo maestro George Gershwin – um dos maiores músicos norte-americanos de todos os tempos –, tendo como base o romance “Porgy”, de DuBose Heyward, "Porgy and Bess" é a ópera mais famosa dos Estados Unidos. Ambientada em um cortiço de negros, a história de amor entre Porgy, um mendigo deficiente físico que usa um carrinho de madeira para se locomover, e Bess, uma bela mulher que foge da polícia depois que seu marido comete um assassinato, tem, ainda hoje, sólida presença nos teatros do mundo inteiro.

     Summertime é executada três vezes, durante a ópera. Logo no primeiro ato, uma personagem coadjuvante, Clara, acalenta um bebê com a canção, cuja letra, em inglês pobre e tudo, remete a um mundo que não representa aquele em que estão inseridos: “Summertime/ And the livin’ is easy/ Fish are jumpin’/ And the cotton is high/ Your dad’s rich/ And your ma’s good-looking/ So hush little baby/ Don’t you cry” (“É verão/ E viver está fácil/ Peixes estão pulando/ E o algodão está alto/ Seu pai é rico/ E sua mãe, muito elegante/ Então, acalme-se, queridinho/ Não chore”). Contextualizada, a música é ainda mais intensa.

     Ah, claro, o cinema. O musical "A Roda da Fortuna" (The band wagon), dirigido por Vincente Minelli, é responsável por outra canção de destaque no jazz. Dancing in the Dark, de Arthur Schwartz e Howard Dietz, faz parte da trilha sonora do filme de 1953 (cenunsabia?), um dos maiores musicais da Metro. Dancing já foi interpretada por toda sorte de jazzistas, do pianista Erroll Garner ao saxofonista Charlie Parker. A cantora e pianista canadense Diana Krall, a nova diva do gênero, gravou-a no álbum "The Look of Love", de 2001.

     "A Roda da Fortuna" foi escrito por Betty Comden e Adolph Green, os mesmos autores de, oh, "Cantando na Chuva". Assim como o filme de 1952, apresenta magníficos números de dança. Também, com Fred Astaire no elenco, não se poderia esperar outra coisa. Em um Central Park reproduzido em estúdio, Astaire dança e canta Dancing in the Dark, acompanhado por Cyd Charisse. A cena é uma das mais marcantes, e o filme, como um todo, um dos maiores exemplares do cinema de entretenimento norte-americano dos anos 1950. E a música... bem, como se pode perceber, Dancing in the Dark é, literalmente, uma outra história.

     Os casos são tantos e tão interessantes que poderiam, perfeitamente, gerar um estudo acadêmico sobre o assunto (já provocaram esta reportagem). Quem sabe um filme ou uma peça de teatro? Poderia até se imaginar um diálogo entre Porgy e Bess:
Porgy – Bess, o que será que estas canções têm?
Bess – Pshhhh, Porgy, speak low. Está tocando Dancing in the dark. Vamos dançá-la sob a Luz do sol.

 
 
 
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REFLEXÕES...

O segredo de uma boa velhice não é outra coisa que um pacto honrado com a
solidão.
Gabriel García Márquez
escritor colombiano
que completa 80 anos
em 2007

 

 
Pazza Comunicazione, 2006
usina.pazza@pazza.com.br