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Maria Luiza Cardinale Baptista (Mtb 6199/25/71)

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Usina Pazza é uma publicação da Pazza Comunicazione, destinada
à informação e análise
de temas relacionados
à comunicação e cultura
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Os textos são de inteira responsabilidade
de seus autores. 

 
Sobre a adoração e outras práticas esquecidas...
Malu Cardinale
 

        Adoração. Eu te adoro. Quem ou o quê você adora? O que as pessoas adoram? Até que ponto ainda se tem a capacidade de adorar? Eu venho pensando na comunicação, nos seres humanos e nas relações humanas, a partir dessas palavras. Adoração, adoro, adorar. Se desmembrarmos as palavras, vamos ter uma matriz que se refere a um modo de olhar o que olha, como quem reza pelo que vê, encantado. Algo que nos remete à outra palavra, também linda: ‘ad-mirar’. Mirar com encanto, eu diria. ‘Ad-orar’. Deter-se no que olha com dedicação, como quem se volta inteiro, intenso, para o que fica assim ‘adorado’, seja uma pessoa, seja um projeto, seja uma prática cotidiana. Talvez o resgate da capacidade de adorar seja uma das nossas grandes pistas existenciais.

        Em geral, não é isso que ocorre no cotidiano. Até porque não é o que a lógica dos grandes centros urbanos em que vivemos propõe. O mosaico mutante e pulsante das cidades incita-nos a uma movimentação caótica, em que os olhares não se detêm, praticamente não se encontram. Cruzamos, nas ruas, com pessoas conhecidas e desconhecidas, muitas vezes, sem que as percebamos, como seres humanos, mas limitamo-nos a atravessá-las, com nossos olhares, como imagens em movimento, visuais que se sucedem, sem essência.

        Nos centros urbanos, os sujeitos caminham apressados, com passadas rápidas, tendo olhares que se cruzam como se fossem raios de efeitos especiais de um filme de ficção científica ou, talvez, menos que isso. Um cenário em que os olhares parecem ter recebido uma espécie de antídoto contra o encontro com outros. Pressa. São humanos que parecem caminhar em busca de uma busca, sem que se saiba exatamente de que se trata. Em alguns casos, as pisadas são firmes, rígidas, o olhar circunspecto. Em outros, há certo desânimo até mesmo na movimentação física, que não se define bem, nem quanto à direção, nem quanto ao ritmo... descompasso humano. Desencontros cotidianos de seres que, por fim, buscam a mesma coisa, sem saber: sobreviver e, de preferência, conseguir realizar seus desejos, dos mais prosaicos aos grandiosos.

        Há diversos fatores que, muitas vezes, põem o sujeito numa espécie de ‘missão impossível presumida’: aceleração, a pressa, o caráter caótico do dia-a-dia, as dificuldades cotidianas em diferentes áreas da vida, as sucessivas frustrações e, principalmente, o medo de não conseguir. Como se houvesse um ‘piloto automático’ interno, então, as pessoas prosseguem seus cursos de vida, mas muitas não sabem bem para onde direcioná-lo, até porque não acreditam nos resultados. Isso faz com que haja uma espécie de amortecimento das sensações no encontro humano, que poderia ser a origem da grande energia, que nos põe vivos, que nos impulsiona a ter mais força na vida. Esvai-se, então, a capacidade de adoração do outro, dos outros, dos nossos afazeres, dos nossos processos de vida... numa espécie de esvaziamento dos sentidos. A Era do Vazio, como já definiu o teórico Gilles Lipovetsky, em um livro belíssimo.

        São muitas as cenas cotidianas em que as pessoas se olham e não se vêem. Uma delas me vêm à mente. Dentro de um vagão do trem metropolitano que faz o trecho de 30 quilômetros, entre Porto Alegre e São Leopoldo, vive-se o emblemático encontro contemporâneo sem adoração, pior, esvaziado de sentimento com relação à presença do outro. As figuras que se encontram ali, por uma espécie de conspiração cósmica, eu diria, em grande parte da situação sequer se percebem, sequer se lembrarão de terem vivido esses encontros. Até porque o fato de compartilhar um espaço tão pequeno, durante meia hora, 40 minutos, não significa encontro efetivo. As pessoas não se olham, não se sentem. Parecem todas concentradas no próprio ‘umbigo da existência’, voltadas para um interior que as ‘protege’... da relação.

        Numa cena recente, lembro um aglomerado de pessoas de diversas idades e também diferentes características, que inicialmente disputaram os espaços disponíveis para sentar. Eu não consegui lugar. De pé, estrategicamente posicionada embaixo do ventilador, para tentar suportar o calor do verão gaúcho, detive-me a olhar, com adoração, quem estava a minha volta. À medida que o trem seguia o seu curso, as pessoas iam se ocupando das mais diversas tarefas, que consideravam adequadas para aquele momento. Algumas liam, outras se ajeitavam nos bancos desconfortáveis do trem e cochilavam, abraçadas em seus pacotes ou simplesmente de braços cruzados. Vez por outra, a cabeça pendia para frente, produzindo o que eu cresci ouvindo ser chamado, durante os cochilos, de pescaria: “Tá pescando, Zé?”, dizia minha avó para meu avô, quando o advertia para ir dormir na cama. No trem, a pescaria é farta. O chacoalhar do trem, associado ao barulho e ao calor, funciona como um acalanto para adultos e crianças.

        Observei, então, esse voluntário ensimesmamento, em que as pessoas adormecem literalmente ou apenas ficam contemplativas, relembrando cenas ou, ainda, absortas, perdidas no seu universo interno. O que mais me chamou a atenção, no entanto, é a desconsideração explícita com a existência do outro. Ao percorrer o olhar, encontrei uma senhora grávida, com aparência de estar de sete meses em diante. A barriga grande, o visual de cansada, o suor escorrendo pelo rosto, com um pacote grande na mão, provavelmente cheio de compras para o bebê que vai chegar. Os lugares reservados para idosos, gestantes e deficientes físicos estavam ocupados. Ninguém parecia ver a mulher. Ao contrário, as pessoas sentadas à volta – talvez de propósito – não dirigiam o olhar para ela, aparentemente para não viverem o constrangimento de ter que resgatar lições de ética familiar, em que certamente tiveram a orientação de que se deve dar lugar para uma grávida sentar, em um transporte público. Ninguém o fez.

        O mesmo descaso com o ser humano esteve relacionado a uma senhora bem idosa, que, também voltada pra si mesma, começou a murmurar uma espécie de hino religioso, sem se dar conta do que acontecia a sua volta. As reações eram as mais diversas, do riso à indiferença. Em todas as manifestações, no entanto, não se percebia ternura para com aquela senhora, que tinha vivido tanto tempo, que, ali, em meio ao amontoado de pessoas, no calor escaldante do verão da grande Porto Alegre, buscava no cântico religioso um alento, acolhimento para sua condição humana. Enquanto cantava, ela demonstrava uma paz imensa, ainda que, no fundo da sua voz, houvesse uma ponta de tristeza. Não era, contudo, o que se vislumbrava em sua face. Ela tinha os traços serenos... Eu fiquei pensando que ela estava ‘protegida’ até mesmo dos olhares e risos, que os ‘humanos(?)’ ali presentes lhe dirigiam.

        Adoração. Ação de adorar. Orar pelo que olha. Fica, então, aqui a idéia de que possamos resgatar essas palavras, em seu sentido estrito e, mais que isso, a prática de adoração no nosso cotidiano. Penso que é crucial que possamos resgatar a intensidade dos encontros, dos olhares plenos, cheios de encantamento e respeito, pelas pessoas, pelas paisagens, pelos processos de vida, por nós mesmos. Tudo tende a ficar mais interessante se pudermos não nos deixar contagiar totalmente pelo caos cotidiano, que amortece nossos sentimentos e nos faz cada vez mais distantes... principalmente dos que estão próximos.

        Nas práticas comunicacionais cotidianas, das relações pessoais ou midiáticas, tomara possamos viver processos de mais adoração ao outro, tentando considerá-lo na sua condição mesma de outro, compreendê-lo como ser diverso e, por isso mesmo, interessante. Acredito que esses encontros mais intensos podem significar processos de revitalização de nós mesmos, recriando-nos, na aventura de viver encontros plenos, aproveitando melhor a conspiração do universo, que nos põe em ‘con-tato’ com outros seres, também, certamente, plenos de desejo de acolhimento afetivo.

 
 
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REFLEXÕES...

O segredo de uma boa velhice não é outra coisa que um pacto honrado com a
solidão.
Gabriel García Márquez
escritor colombiano
que completa 80 anos
em 2007

 

 
Pazza Comunicazione, 2006
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