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Ensaio
 
Caio F: um mundo de procuras e espantos
Ademir Furtado
 
 

O autor, em foto de capa da coletânea “Cartas”, lançada em 2002 (Divulgação)
     
“A dor, a morte, pouco importam (ou é só o que importa), porque são parte da condição humana. Mas que se tenha uma vida completa, que se possa passar por ela deixando algo bom para o planeta, para os outros. Vezenquando penso que, no que escrevo, quase consigo. E me sinto sereno. Mas quero fazer mais.”
Trecho de uma carta enviada por Caio à amiga Maria Augusta Antoun,
em 1.12.1995, três meses antes de o escritor falecer

     Em fevereiro de 1996, morreu Caio Fernando Abreu. Dez anos depois, sua obra continua mais viva do que nunca, merecendo relançamentos e homenagens.

     Hoje parece não haver dúvidas de que Caio foi um dos maiores escritores da Literatura brasileira do final do século XX. O que o torna uma figura singular no cenário cultural do país é o ponto de vista adotado para abordar as mazelas humanas.

     Nascido no interior do Rio Grande do Sul, numa região fronteiriça, Caio veio para Porto Alegre ainda adolescente, nos anos de 1960, estudar. Na época, o astro mais brilhante da literatura gaúcha era Erico Verissimo, cuja obra mais importante tratava da formação histórica desse Estado. Nesta, o autor fazia desfilar uma constelação de heróis valentes e guerreiros destemidos, dispostos a dar a vida por uma causa nobre, que, no caso, era o amor à terra natal.

      Caio não se entusiasmou muito por esta temática. Em vez de ver o mundo a partir da imensidão verde dos campos, em cima de um cavalo, onde cada gesto é uma demonstração de coragem e valentia, ele mostra a visão de um menino tímido, através de uma vidraça embaçada. E isso não por cegueira ou covardia. A realidade brasileira era outra quando o autor lança seu primeiro livro, Inventário do Irremediável, no começo dos anos de 1970. No plano político, o Brasil vivia sob uma ditadura; no plano econômico, os latifundiários dominavam o campo, expulsando pequenos proprietários, que, então, buscavam abrigo nas grandes cidades. O resultado foi um aumento vertiginoso e desordenado das principais capitais brasileiras, onde uma multidão perambula em busca de sobrevivência, vivendo um choque de identidades, por não se identificarem mais com o ambiente em que passaram a viver. Este contingente de despojados vive intensamente à procura de um espaço protetor e encontra apenas o espanto, ao se deparar com uma realidade totalmente adversa.

     É essa condição existencial do homem urbano que interessa a Caio. E, para retratá-la, ele não se orienta pelo trabalho de escritores locais, tão ocupados com heróis farroupilhas e aventuras campeiras. Sua maior fonte de inspiração é Clarice Lispector, não só na abordagem dos temas, mas principalmente na elaboração de uma linguagem mais adequada à representação de uma realidade caótica. Em Inventário do Irremediável, é inegável a influência da escritora.

      Um dos traços característicos dos anos de 1970 é a perda das ilusões com as utopias. Esse estado emocional coletivo se reflete na obra de Caio, em que os personagens estão constantemente à deriva, sem se ligarem a nada, e os sinais de uma identidade construída são muito frágeis. O mundo torna-se algo estranho, o espírito não encontra mais identificação com a realidade exterior. Jogado no meio da multidão, o homem das grandes metrópoles vive sob a experiência do anonimato. Essa condição, por outro lado, proporciona-lhe uma sensação de liberdade, para mergulhar no mais profundo de sua intimidade. Esse mergulho se concretiza na busca de uma essência do humano, que, no final das contas, é a procura da verdadeira identidade, aquela que o sujeito encontra, ao despir as máscaras impostas pelo convívio social.

     O encontro de um lugar seguro onde o espírito possa se abrigar, porém, parece não acontecer em toda a obra do escritor. As expectativas de descanso são constantemente frustradas pela falta de concretude das coisas. Em um conto do Inventário, não por acaso intitulado “ITINERÁRIO”, o narrador sintetiza esta questão:

     “A segurança das coisas fáceis e simples desliza entre meus dedos recusando fixar-se. E há o cigarro: essa tonalidade azulada é apenas a fumaça subindo em lentas espirais, cada vez mais densa, tomando conta de mim, eu sei, deve ser, porque as coisas não sendo o que são outra vez me jogarão num mundo de procuras e espantos”.

      Como se pode ver, esse não é o espaço para heróis. Aqui, não há lugar para atos de bravura e valentia, e a causa nobre é apenas manter-se num nível mínimo de sobrevivência, seja física ou existencial. Os personagens não vivem mais numa integração ideal com a natureza. Eles estão espremidos entre lajes de concreto, vendo o céu, apenas por frestas entre as paredes dos arranha-céus. São apenas um número insignificante, num espaço em que a arquitetura essencialmente funcional expulsou qualquer vestígio de humanidade. Tudo é calculado, em função da objetividade e racionalidade. Nessas condições, a sensação de opressão e invasão é constante.

     No livro Pedras de Calcutá, lançado em 1977, essa experiência da invasão é apresentada em quase todos os contos. A partir de uma situação de equilíbrio, algo acontece, instalando o caos na vida do personagem, que não consegue mais recuperar a posição original. No caso, por exemplo, do conto “Até oito, minha polpa macia”, uma mulher de 29 anos, que “dedilha o tédio abaixo do umbigo”, vive um momento de descontrole, produzido por um fluxo de consciência. Neste, que aparece como uma invasão, a linguagem explode num ritmo alucinante, e as palavras, idéias, imagens vão surgindo como uma enxurrada. A personagem não tem nenhum domínio sobre seu próprio discurso, porque as palavras ou imagens lhe vêm à mente e lhe saem pela boca, às vezes sem que ela própria entenda o que significam.

      Já no conto “Sim, ele deve ter um ascendente em peixes”, a situação é de total estranhamento. Um homem volta à noite para a casa onde mora, há 15 anos, e não reconhece nem a casa, nem a rua. A chave não serve na porta que ele tenta abrir inutilmente. Dirige-se a um homem negro, que está sempre na parada do ônibus, mas recebe dele apenas respostas desconexas. O negro pergunta se ele quer alguma coisa e ele responde que não fuma. Mais adiante, ele pergunta ao negro o nome da rua e recebe como resposta que o outro não tem fósforo. No mais das vezes, a interação entre os dois é apenas por ações e pressupostos. Ele pensa que o negro quer alguma coisa, assaltar, matar, e age como se já estivesse sendo assaltado. A ação termina com o estranho dizendo que não quer dinheiro, quer apenas prazer. E é na experiência do prazer que a busca de identidade se intensifica. Diluído no meio da multidão, livre dos olhares dos outros, o indivíduo está livre para ir ao encontro do mais íntimo de si mesmo. E essa viagem interior é o tema básico dos contos de Caio.

      Ao distanciar-se dos temas e abordagens restritos da cultura gaúcha e aproximar-se de uma das maiores escritoras brasileiras, Caio Fernando Abreu conquistou uma posição indiscutível, pela qualidade e intensidade da obra, entre os maiores nomes da literatura nacional.

 
 
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em 2007

 

 
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