usineiros pazzi

 
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Lucas Colombo
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+
Encontros Caóticos
Entrevista
Eu e mim mesmo
 

 

 

expediente
 

Diretora de Redação
Maria Luiza Cardinale Baptista (Mtb 6199/25/71)

Editor
Lucas Colombo

Webmaster
Maikel Lersch

Assistente de Comunicação
e Planejamento
Deise Tagiane

Usina Pazza é uma publicação da Pazza Comunicazione, destinada
à informação e análise
de temas relacionados
à comunicação e cultura
do Brasil e do mundo.

Os textos são de inteira responsabilidade
de seus autores. 

 
Estante
 
CD
12 segundos de oscuridad – Jorge Drexler
Warner
 
     Tempo de escuridão
 
     Depois de receber um Oscar pela canção-tema do filme “Diários de Motocicleta” e de passar por uma ruptura amorosa, o cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler regressa com um trabalho marcado pelo desassossego e pela incerteza. Em seu oitavo disco, o músico expõe uma busca interna, desencadeada, talvez, por sua recente separação.

     “12 segundos de oscuridad” revela a maturidade e a excelência musical de Drexler, além de sua forte ligação com a música brasileira. Esse vínculo é

evidenciado, por exemplo, na faixa-título, uma parceria do compositor com Vitor Ramil, e na versão de “Disneylândia”, dos Titãs, em que o uruguaio canta acompanhado de um dos autores da canção: Arnaldo Antunes.

     Paulinho Moska também faz uma participação especial, na música “Quien quiera que seas”, e Maria Rita expressa suavidade numa das melhores faixas do disco, “Soledad”. Outras canções também se destacam. É o caso de “Inoportuna”, que, em certos instantes, remete ao humor do compositor – também uruguaio – Leo Masliah. Já a sétima faixa do cd, “La infidelidad de la era informatica”, como explicita o próprio título, trata de um tema bastante atual.

     Percebe-se que, como gesto de maturidade, o trovador uruguaio entendeu que precisava aproveitar as incertezas geradas pelas mudanças no seu entorno e canalizar suas angústias em canções mais autobiográficas, marcadas pela nostalgia, mas nunca pela tristeza. “12 segundos de oscuridad” é a melhor obra de Jorge Drexler: um disco ao mesmo tempo intimista e universal. (Deise Martins)

 
 
 
 
DVD
Arca Russa - Aleksandr Sokúrov
 
Epopéia russa
 
Arca Russa

    Arca Russa é um filme especial, no que se refere a sua execução. Feito em um plano-seqüência único de 96 minutos – ou seja, sem cortes –, o ousado experimento do diretor Aleksandr Sokúrov conta com um elenco de 900 atores e outras centenas de figurantes, além de três orquestras. A obra já seria interessante se fosse um documentário que captasse a movimentação cotidiana de um museu. O que o espectador vê, no entanto, são séculos da história da Rússia, apresentados por meio das obras expostas no Museu Hermitage, de São Petersburgo. No século XX, este foi o antigo Palácio de Inverno, da cidade de Leningrado – como era chamada São Petersburgo. Hoje, é um dos maiores museus do mundo, testemunha da História russa, ao longo dos séculos.

    
    No filme, um diplomata francês do século XIX e o próprio diretor – um narrador que aparece como uma espécie de alter ego de Sokúrov –, percorrem 35 salas do Hermitage, pelas quais desfilam 300 anos de História da Rússia. Encontram-se, então, com vários episódios marcantes, como a última ceia da dinastia dos Romanov – que se contrapõe à Santa Ceia cristã –, e com algumas importantes figuras históricas, como Pedro, o Grande; Catarina, a Grande; Catarina II; e Nicolau I e II. O baile que encerra o filme é uma metáfora dos últimos brilhos do império russo.

    Arca Russa apresenta os principais recursos estéticos de Sokúrov: a utilização de tempos longos, para potencializar sentidos; a modelação dos espaços mediante a luz; a profunda intervenção nos níveis de cor; a distorção da imagem, por meio de lentes especiais; os planos lentos e a contraposição das diversas texturas e granulações possíveis para a película.

    Trata-se, sem dúvida, de uma obra de arte do cinema russo. Outros filmes do diretor Aleksandr Sokúrov são A voz solitária do homem (1978), Mãe e Filho (1997), Moloch (1999), Pai e Filho (2003) e O Sol (2004). (Deise Martins).

DVD Arca Russa (Russian Ark / Russkij Kovcheg)
2002
Mais Filmes
 
 
 
 
 
DVD
Ponto de mutação – Bernt Capra
 
Tudo está relacionado
 
Ponto de mutação

    Quem conhece as idéias do físico austríaco Fritjof Capra sabe que estas constituem um modo bastante interessante de perceber o mundo e de explicar a realidade (e, a quem não as conhece, recomendo fortemente que comece a se informar a respeito). Trata-se de um pensamento holístico, que leva ao entendimento de que somos parte de uma teia inseparável de relações.  Resumidamente, a chamada Visão Sistêmica, proposta por Capra, opõe-se à idéia de que, para entender o todo, é preciso fragmentá-lo, indo do particular ao geral. Os sistemas são totalidades integradas, e, por isso, temos de pensar em termos de redes, ver as conexões entre as coisas. Devemos pensar em processos, e não em estruturas (pois é, leitor, concordo que, para muitos, isto é bem difícil).

    O livro O ponto de mutação, lançado por Capra em 1982, representa um marco no desenvolvimento desta nova visão de mundo. Considerado um dos

precursores da linha de pensamento denominada “Nova Era”, o livro foi adaptado para o cinema em 1990, por Bernt Capra, irmão de Fritjof. Ponto de mutação, o filme, tem a espetacular Liv Ullmann (a grande atriz dos filmes de Ingmar Bergman) no elenco, como a cientista Sonia Hoffmann. A personagem é um tipo de alter ego de Fritjof Capra. Os dois outros personagens principais são o político Jack, interpretado por Sam Waterston, e o poeta Thomas, vivido por John Heard. Os três estão atravessando crises pessoais, que os fazem reavaliar suas idéias. Vão, então, passar um tempo na abadia medieval de Mont Saint Michel, no litoral da França, onde acabam se encontrando. Sonia apresenta a Visão Sistêmica a Jack e Thomas, e os três discutem política, ecologia, tecnologia e arte, com base nesta teoria.

     A obra é bastante discursiva. Concentra sua narrativa, quase que totalmente, no diálogo entre os personagens, denso de conteúdo durante todo o filme. Há falas bastante significativas, que traduzem alguns pontos da Visão Sistêmica. No início do filme, por exemplo, a filha de Sonia diz à mãe: “Você só fica enclausurada neste castelo, sem perceber as coisas ao seu redor”, para, pouco depois, como se fosse uma resposta, Thomas dizer a Jack: “Nenhuma ilha está isolada, ela faz parte do continente”.

     Em uma cena emblemática, os três personagens encontram-se no recinto do castelo onde está exposto um relógio medieval. Sonia usa-o como exemplo, para criticar a visão mecanicista de compreensão do todo por meio de sua fragmentação em unidades básicas. Dirigindo-se a Jack, afirma: “Perdoem-me, mas vocês, políticos, dificultam as coisas. As idéias da maioria de vocês, de direita ou de esquerda, parecem-me antiquadas e mecânicas como um relógio. É como se a natureza funcionasse feito um relógio. Vocês a desmontam, a reduzem a um monte de peças simples e fáceis de entender, analisam-nas e, aí, pensam que entendem o todo. Mas os tempos mudaram. Precisamos de um novo modo de entender a vida. A ciência já passou o pensamento mecanicista. Mas vocês, políticos, parecem ainda ter essa máquina dentro de suas cabeças” (fala muito atual, esta). Ainda, mais tarde, ao discutir os problemas do mundo com Jack e Thomas, Sonia comenta: “Claro que você pode consertar uma peça, mas ela quebrará de novo, porque você ignorou o que se conecta a ela”.

     Bernt Capra foi diretor de arte de Bagdad Café (1987) e production designer de Gilbert Grape – Aprendiz de sonhador (1993), entre outros trabalhos. Ponto de mutação é seu único filme como diretor. A adaptação do livro de seu irmão não chega a ser uma obra-prima cinematográfica, nem almeja sê-lo. Não deixa, porém, de ser um bom filme e de apresentar muito bem as idéias de Fritjof Capra. O foco da obra, realmente, é a Visão Sistêmica – e isto já é suficiente para tornar o filme altamente recomendável. (Lucas Colombo)

     Sugestão de leitura: CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1982.

DVD Ponto de mutação (Mindwalk)
Paramount
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CD
The best of Chet Baker sings - Chet Baker
Emi Music
 
     Chet is all
 
     Para reconhecer em Chet Baker um músico extraordinário, não é preciso entender de jazz. Sua voz e seu trompete parecem ser o mesmo instrumento, apenas com sonoridades diferentes. Do ponto de vista técnico, Chet trabalha os recursos do sopro em seus vocais, com os vibratos nos finais das notas e o chamado “ruído branco”, emitido pelo intervalo da aspiração do ar. Do ponto de vista estético, sua música tem um caráter extremamente insinuante e intimista, do qual virtuoses como Dizzy Gillespie e Miles Davis eram fãs confessos. “The best of Chet Baker sings” reúne 20 músicas com o melhor de seu

estilo, o cool jazz, e constitui-se numa ótima amostra de seu trabalho. As faixas são do tempo em que Chet lançava seus discos pela lendária gravadora Blue Note, nos anos 1950 e 1960.Na clássica My funny Valentine, de Richard Rodgers e Lorenz Hart, Chet canta acompanhado apenas do piano de Russ Freeman e do baixo de Carson Smith. É a versão definitiva da música. Em You don’t know what love is (Raye/DePaul), outro destaque, o músico intercala seu canto sussurrado a um tocante solo de trompete. It’s always you (Burke/van Heusen), Time after time (Cahn/Styne) e There will never be another you (Warren/Gordon) também são puro Chet Baker. No encarte do Cd, ele afirma: “Não sei se sou um trompetista que canta ou um cantor que toca trompete. Eu amo fazer os dois”. Assim, é impossível não ser genial. (Lucas Colombo)

 
 
 
 
Livro
Tudos – Arnaldo Antunes
 
Eu apresento a página branca
 

     “(...) As páginas foram escritas para serem lidas. As árvores podem viver mais tempo que as pessoas. Os elefantes e golfinhos têm boa memória. Palavras podem ser usadas de muitas maneiras”. Falou
Tudos
, Arnaldo Antunes. Neste livro de 1990, o segundo de sua carreira literária, o poeta-compositor-cantor-videoartista apresenta as muitas maneiras de se usar palavras. Testa, assim, os limites da poesia.

     Na obra, as influências do Concretismo são evidentes. A experimentação gráfica é a principal característica de Tudos. Arnaldo explora mais o significante das palavras (ou seja, seus aspectos sonoro e visual) do que, propriamente, o significado. Os poemas são fragmentados, espalhados no bojo da página, e oferecem múltiplas possibilidades de leitura.

Em alguns momentos, é até preciso virar o livro de ponta-cabeça – algo que Arnaldo deve adorar. Não satisfeito, ele ainda confecciona poemas-desenho, poemas-rabisco e até poemas-fotografia – isso mesmo, e por que não? Alguns destes, Arnaldo elaborou em parceria com sua mulher, a cantora e instrumentista Zaba Moreau, que também assina a capa do livro.

     Em meio a toda esta quebra de padrões, porém, há espaço para lirismo (“Sou feliz/
e não sou./ A chuva cai/ como uma luva.”) e um recurso bastante empregado pelos simbolistas, a sinestesia (“Estou cego a todas as músicas”). Arnaldo brinca com as palavras (“olhos/ olhos/ oh luz”) e, como não poderia deixar de ser, transborda musicalidade (“Silêncio vento/ não silêncio vem./ Silêncio ventre;/ não silêncio sêmen – Silêncio sem”).

     Tudos atesta que Arnaldo Antunes é, realmente, um dos maiores poetas contemporâneos brasileiros. Além de possuir um alto teor semiótico, sua obra, com este predomínio da comunicação visual sobre a verbal, coloca em xeque os hábitos do leitor de poesia. E para aqueles ‘críticos’ ortodoxos, que insistem em afirmar que produções como a de Arnaldo “não são poesia”, o poema a seguir – aqui, sem o impacto visual que tem no livro – serve como resposta: “hentre/ hos/ hanimais/ hestranhos/ heu/ hescolho/ hos/ humanos”. Um ser hestranho só pode criar uma obra hestranha, não é? Cenas da arte pós-moderna. (Lucas Colombo)

Tudos
Arnaldo Antunes
6. ed. São Paulo: Iluminuras, 2001
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DVD
Terra Estrangeira – Walter Salles Jr. e Daniela Thomas
 
Vou tomar aquele velho navio
 
     A busca da identidade pessoal, do “quem sou”, é tema constante na Sétima Arte (e nas outras seis também). Para ficar nos exemplos mais recentes, filmes como 21 Gramas (2004), de Alejandro González Iñárritu, As Horas (2003), de Stephen Daldry, e As Confissões de Schmidt (2002), de Alexander Payne, apresentam, cada qual à sua maneira, personagens à procura de si mesmos, de um sentido para suas vidas – com o perdão do clichê. O cineasta Walter Salles também embrenhou-se por esta floresta em 1995, quando, em parceria com a cenógrafa e diretora Daniela Thomas, lançou Terra Estrangeira, filme absolutamente poético e inquietante. Uma década depois, o longa saiu em DVD, em edição comemorativa, incluindo um documentário sobre a produção do filme e depoimentos dos realizadores.


     Assim como Central do Brasil (1998) e Diários de Motocicleta (2004), outras obras de referência na carreira de Walter Salles, Terra Estrangeira é um road-movie, ou seja, um filme ‘de estrada’. O casal de protagonistas, vivido por Fernanda Torres e Fernando Alves Pinto (perfeitos nos papéis), passa a maior parte do filme viajando. A história desenrola-se durante o governo Fernando Collor (1990-1992) e tem como pano de fundo o confisco das contas correntes e das poupanças, efetuado no dia seguinte à posse do presidente. São usadas, inclusive, imagens verídicas da então Ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, anunciando o pacote econômico.

     Depois da morte da mãe, que sofre um infarto ao saber que suas economias de toda a vida estavam retidas no banco, Paco (Fernando), um ator frustrado, decide sair do Brasil. Concorda, então, em levar um objeto contrabandeado para Portugal, a pedido de um ‘amigo’. Tal trabalho o leva a Alex (Fernanda), também brasileira e profundamente incomodada com sua condição – “Aqui em Portugal, quanto mais o tempo passa, mais eu me sinto estrangeira”, diz ela. Os dois iniciam um relacionamento e acabam fugindo, correndo (literalmente) atrás de seus antigos planos. A interpretação marcante de Gal Costa para "Vapor Barato", de Jards Macalé e Wally Salomão, pontua a fuga de Paco e Alex. A canção tem exatamente o clima do filme (ou seria o contrário?).

     A fotografia, em preto-e-branco, sugere que nada era ‘collorido’ naquela época. Os problemas de áudio da versão em VHS foram corrigidos no DVD. Visualmente, Terra Estrangeira é espetacular, com ótimos efeitos de iluminação e montagem competente, que constituem uma qualidade estética rara em cinema brasileiro. A cena em que o casal contempla o velho navio encalhado no mar, imobilizado, sem poder voltar ou seguir adiante, é uma das mais belas – e extremamente metafórica. Assim como o navio, Paco e Alex são fortes, mas, ao mesmo tempo, aprisionados por uma situação que eles próprios criaram.

     Embora remeta a um período específico da história brasileira recente, Terra Estrangeira veicula questões atemporais, que Walter Salles soube trabalhar com maestria. Talvez, trate-se mesmo de seu melhor filme, como afirmam alguns críticos. É lirismo extraído dos escombros. (Lucas Colombo)

DVD Terra Estrangeira
2005
Videofilmes
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CD
Segundo – Maria Rita
Warner
 
     Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais
 
Maria Rita conta com o excelente marketing da condição de filha de Elis Regina para ser saudada como “ótima cantora” e “revelação da MPB”. Se o primeiro disco, lançado em 2003, fazia despontar a esperança de que a intérprete se desvincularia da imagem da mãe e assumiria estilo próprio, o novo, “Segundo”, derruba todas as expectativas. Maria Rita continua remetendo a Elis, mas apresentando um repertório fraco e irregular (algo que a Pimentinha não fazia). As músicas são repetitivas, e os arranjos, exaustivamente parecidos.O disco abre com “Caminho das águas” e “Recado”, do novato Rodrigo
Maranhão, compositor carioca que, nestas canções, não diz muita coisa, e fecha com “Despedida”, de Marcelo Camelo, cuja melodia chega a incomodar, de tão cansativa. A corajosa regravação de “Sobre todas as coisas”, do álbum O Grande Circo Místico, de Chico Buarque e Edu Lobo, ficou excessivamente arrastada, fazendo a música perder seu encanto (para o qual contribuíram as interpretações de Gilberto Gil e Maria Bethânia). Ok, há o bom samba “Conta outra”, de Edu Tedeschi, gravado ao vivo no Teatro do Sesi, em Porto Alegre, e a complexa “Ciranda do mundo”, de Eduardo Krieger – filho do maestro Edino Krieger –, canção repleta de divisões rítmicas. Mas nada que impressione. “Segundo” é um disco tímido e inexpressivo. Não foi dessa vez que Maria Rita deixou de ser a “filha de Elis Regina” - e ela, realmente, não precisa ligar-se à mãe para chamar atenção. Bebel Gilberto, por exemplo, mesmo sendo filha de João, tem uma obra originalíssima e um estilo bastante pessoal. (Lucas Colombo)
 
 
 
 
Livro
Tabus, perversões e outras catarses – Rudiran Messias
 
     As perversões dos deuses
 
     Alguns artistas gostam de pensar que não são criadores de suas obras, mas, sim, apenas o meio através do qual uma ‘potencialidade se atualiza’ ou uma força cósmica se manifesta. Não há a opção de criar ou não criar, pois, como acreditavam os povos da Antigüidade, o artista é o escolhido por uma divindade para ser o instrumento de transmissão de uma mensagem. A única possibilidade de salvação e liberdade é ceder passivamente a esta condição de instrumento e deixar que o deus lhe dite as palavras.

     É assim que se apresenta o narrador de Tabus, perversões e outras catarses, livro de Rudiran Messias. Um indivíduo que, após beber, num cálice impuro, o veneno das ruas, refugia-se em seus domínios, um apartamento no vigésimo quinto andar de um edifício. Começa, então, a imprimir em folhas de papel todo o

desespero captado nos rostos humanos. São vidas fracassadas desde o começo, ou pela miséria social, ou pela fraqueza de caráter, numa trajetória em que não há escolha, pois o destino já está traçado por forças superiores.

     Trata-se de seres humanos torturados pelos conflitos entre as expectativas da alma e as exigências do corpo. Personagens que habitam um universo sufocado pela fé e pela moral religiosa, em que as pulsações da carne são combatidas com rezas, autoflagelação e princípios éticos. As tentativas de aprisionamento do corpo, para maior liberdade da alma, são, no entanto, condenadas à frustração. As pulsações reprimidas, não encontrando espaço livre para fluir, transformam-se em instintos destrutivos e explodem em forma de perversões. Os tabus geram, fatalmente, perversões. O resultado é sempre o mesmo: a uma experiência de prazer, segue-se, invariavelmente, uma carga de culpa e remorso.

     O desfile dessas vidas pelo livro, porém, não tem o intuito de salvá-las, nem mesmo entendê-las. O narrador é apenas o veículo de transmissão de uma voz desprovida de qualquer traço de piedade, e sua narrativa é permeada pelas noções de pecado e punição. É a voz de um deus, cujo passatempo é observar suas criaturas se debaterem na prisão corporal criada para elas.

     Tabus, perversões e outras catarses é um livro de estréia de um escritor jovem, mas que já aborda questões morais, como o eterno conflito entre corpo e alma. Tema, este, que gerou grandes obras da Literatura Ocidental. (Ademir Furtado)

Tabus, perversões e outras catarses
Rudiran Messias
Porto Alegre: Nova Prova, 2005

 
 
DVD
Um cão andaluz (edição conjunta com A Idade do Ouro) – Luis Buñuel e Salvador Dalí
 
     Sou ateu, graças a Deus
 

     Um homem corta o olho de uma mulher com uma navalha. Formigas brotam da mão deste mesmo homem. A mulher, aparentemente, vive em um centro urbano, mas, em um dado momento, abre a porta de casa e vai caminhar na beira da praia. Ao tentar aproximar-se da mulher, o homem arrasta um piano, e, do nada, surgem dois animais mortos em cima do instrumento. De repente, o homem, ainda na tentativa de chegar à mulher, começa a arrastar, além do piano, também dois padres.

     Cenas improváveis – mas bastante sugestivas – como estas causaram escândalo no público em 1929, ano em que Um cão andaluz (Un chien andalou), de Luis Buñuel e Salvador Dalí, foi lançado.

O filme, considerado um marco do Surrealismo no cinema, ganhou versão em DVD, em edição conjunta com A idade do ouro (L’Age d’Or), também realizado pela dupla, em 1930.

     Com Buñuel e Dalí, um dos movimentos artísticos mais significativos do século XX chegava às telas de cinema. O Surrealismo pautava-se pela valorização do sonho, da fantasia e do inconsciente e pela abolição da linearidade e do nexo. É exatamente isto que se vê em Um cão andaluz. Não há coerência na história. A situação dos personagens é absurda e sem explicação imediata. A montagem é caótica, com planos sem encadeamento lógico. O filme aparenta ser um longo devaneio.

     Buñuel e Dalí conheciam-se desde a adolescência. Depois de fundar o primeiro cineclube da Espanha e trabalhar como assistente de direção de Jean Epstein em Paris, Buñuel convidou o amigo artista plástico para colaborar na produção de seu primeiro filme. Os dois, já fortemente influenciados pelas idéias surrealistas, combinaram que comporiam as imagens com base em seus delírios criativos, desde que entrassem no roteiro, porém, apenas as sugestões que fossem consenso entre eles.

     Um cão andaluz foi rodado em apenas 15 dias, ficando com 17 minutos de duração. Foi exibido pela primeira vez em Paris, para uma platéia de intelectuais (entre eles o poeta André Breton, autor dos “Manifestos do Surrealismo”), ao som de “A Cavalgada das Valquírias”, de Richard Wagner, e de um tango argentino, executados em um gramofone. Ao final da projeção, o jovem Buñuel foi aclamado pelos presentes, contrariando as expectativas do diretor – temeroso da reação ao filme, ele havia levado pedras nos bolsos para revidar uma possível agressão da platéia. A boa recepção inicial, contudo, não evitou que o cineasta espanhol tivesse problemas. Sua casa foi alvo de ataques de grupos conservadores, que tentaram, sem sucesso, impedir a exibição da obra na França. Um cão andaluz, como se pode perceber, é uma verdadeira obra subversiva, em todos os sentidos do termo. (Lucas Colombo)

     Sugestão de leitura: Cinema, entre a realidade e o artifício – Luis Carlos Merten. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2003.

DVD Um cão andaluz e A Idade do Ouro (Un chien andalou/L’Age D’Or)
2005
Versátil
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Livro
Os Ratos – Dyonelio Machado
 
     O preço de um dia
 
      Naziazeno Barbosa é um homem simples, casado, com um filho pequeno. Trabalha como funcionário público, em Porto Alegre. Seu dia começa com um conflito banal: uma briga com o leiteiro, devido ao atraso no pagamento do leite. O credor dá-lhe apenas mais um dia de prazo e ameaça cortar o fornecimento. Naziazeno já havia retirado outros itens do cardápio por falta de dinheiro, mas o leite era um alimento importante para o filho.  Começa, então, uma corrida desesperada em busca de um empréstimo.

      Os Ratos, de Dyonelio Machado, narra esta procura de Naziazeno por dinheiro, durante todo um dia. Seu itinerário inclui várias passagens pelo Mercado Público, cafés, as docas do cais do porto, contato com agiotas e uma tentativa de jogo na roleta.

Tudo isto embaixo de um calor sufocante, e com o corpo fraco, por falta de alimentação.

      O aspecto mais importante desse romance é o processo narrativo. Naziazeno é acompanhado de perto, da manhã à noite, sem que escape ao narrador o menor gesto. O texto compõe-se de frases curtas, diretas, numa descrição rápida, nervosa, traduzindo o estado de espírito do personagem. Não há nenhuma investigação mais profunda a respeito da subjetividade de Naziazeno. Sua vida interior é apresentada através do seu comportamento exterior. O narrador segue a personagem não só no espaço, mas também no tempo, no momento exato em que os fatos acontecem. Naziazeno age como um animal acossado, que se debate, anda de um lado para outro, sem ir para lugar algum e, ao mesmo tempo, sem parar de andar.

     A narrativa no tempo presente dá a idéia de que essa situação é constante. Na vida do personagem, não há um passado diferente para ser contado. Fica bem claro que a aquisição do dinheiro não mudará muita coisa. Será apenas a solução de um problema imediato, que se repetirá em breve.

     Um único dia basta para mostrar uma existência, que, de tão miserável, está fora do tempo e do espaço, dimensões não definidas no texto. Apenas alguns elementos na narrativa permitem deduzir que o romance se passa em Porto Alegre, no começo da década de 30. A história de Naziazeno, contudo, é atemporal. É o retrato da impotência humana, da miséria existencial de um homem fraco, sem expectativa de futuro, que poderia se passar em qualquer época e lugar. (Ademir Furtado)

Os Ratos
Dyonelio Machado
São Paulo: Planeta, 2004
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DVD
Os sonhadores – Bernardo Bertolucci
 
     Outro tango em Paris, em pleno Maio de 1968
 
     Bernardo Bertolucci é um diretor de grandes trabalhos. O escandaloso e poético O último tango em Paris (1972) é um marco do cinema e um dos filmes mais polêmicos de todos os tempos (no Brasil, chegou a ser censurado pela ditadura militar). O último imperador ganhou os Oscar de Melhor Filme e Diretor. O céu que nos protege e Assédio também são obras intensas. Depois dos fracos – mas não por isso descartáveis – O pequeno Buda e Beleza Roubada, Os sonhadores vem reafirmar a genialidade do diretor italiano. Apresenta Matthew, um jovem norte-americano que vai estudar francês em Paris e acaba se envolvendo com um casal de irmãos cinéfilos que têm uma relação quase incestuosa. Para contar esta história, Bertolucci e o romancista Gilbert Adair, autor de The holy innocents,
elaboraram um ótimo roteiro. Letras de músicas completam falas ou definem o estado de espírito dos personagens, e “inserts” de clássicos do cinema, como Luzes da cidade, Acossado e A Vênus loira, ilustram as discussões que eles travam, sobre a Sétima Arte.

      As comparações com O último tango em Paris são inevitáveis. Assim como o filme de 1972, as cenas de sexo de Os sonhadores beiram o explícito, mas sem, em momento algum, cair na vulgaridade. A Fotografia e a Direção de Arte, impecáveis, também lembram o clima soturno daquele filme. E o cenário é, claro, novamente Paris, a cidade que Bertolucci associa ao erotismo e à transgressão.

     Os atores estão muitíssimo bem. Michael Pitt (Matthew) e Louis Garrell (Theo) mostram que têm grande talento. Eva Green (Isabelle), por sua vez, na cena em que se faz de Vênus de Milo para o personagem de Pitt, além de provar ser uma grande atriz, ainda seduz o público com sua beleza e sensualidade incomuns.

      O movimento estudantil de Maio de 1968 (apressadamente comparado aos recentes conflitos entre a polícia francesa e jovens dos subúrbios de Paris) é apenas o pano de fundo do filme. O espectador não deve esperar, portanto, profundas reflexões sobre os aspectos político-culturais daquele período - o diálogo em que Theo critica o pai por seu ‘conformismo’, por exemplo, é apenas interessante, nada mais do que isso. O foco de Bertolucci em Os sonhadores são as atitudes e pensamentos de seus personagens, e não barricadas, passeatas, coquetéis molotov e flores oferecidas para policiais. Durante os 130 minutos do filme, Theo, Isabelle e Matthew fazem de tudo: se amam (muito, e cada vez mais), correm pelo Louvre para homenagear Bande à part (1964), de Godard, e comem lixo como se fosse uma maravilha gastronômica. E, como canta Edith Piaf na cena final, ne regrette rien. (Lucas Colombo)

DVD Os sonhadores (The Dreamers)
2005
Fox Filmes
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CD
Mina d’água do meu canto – Gal Costa
BMG
 
Voz de gênio para composições idem
 

    Alguma dúvida em relação ao título de maior intérprete da MPB, tão descompromissadamente atribuído a Gal Costa o tempo todo? Ela foi a principal voz feminina da Tropicália, a cantora preferida de Tom Jobim e lançou álbuns-tributo a Dorival Caymmi e Ary Barroso. Como se não bastasse, Gal ainda gravou um disco de grande qualidade apenas com canções de Caetano Veloso e Chico Buarque, dois de nossos maiores compositores. Com arranjos e produção de Jacques Morelenbaum, “Mina d’água do meu canto” vai dos sambas de Chico (Samba do grande amor,

Quem te viu, quem te vê) às bossas novas de Caetano (Lindeza, Como um samba de adeus), passando pelo romantismo algo cínico do carioca (Futuros amantes, A Rita, Desalento) e pelas ‘explosões’ do baiano (O quereres, Língua, Odara). Sempre acompanhada do cello de Morelenbaum, Gal faz novas versões para músicas pouco conhecidas dos autores. Foi o que aconteceu com Morena dos olhos d’água, do início da carreira de Chico, que ficou arrepiante com uma introdução de corne inglês. Interessante também a versão de Pelos olhos, faixa esquecida do álbum Jóia, de Caetano, 1975 – nesta, a harmonia e a melodia remetem a Nino Rota, influência assumida do tropicalista. Em “Mina d’água do meu canto”, tudo está perfeito: a voz de Gal, cristalina, o cello de Morelenbaum, afinado, e as composições de Chico e Caetano, afiadíssimas. É a música brasileira em mais um grande momento. (Lucas Colombo)

 
 
 
 

 

 

Pare & Pense

galeria

Produto da Rua

Nas fotos de
Romulo Lubachesky,
os trabalhadores das
ruas de Porto Alegre
como você nunca viu.


REFLEXÕES...

O segredo de uma boa velhice não é outra coisa que um pacto honrado com a
solidão.
Gabriel García Márquez
escritor colombiano
que completa 80 anos
em 2007

 

 
Pazza Comunicazione, 2006
usina.pazza@pazza.com.br