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de seus autores. 

 
Eu e mim mesmo
 

Fernanda, um exagero para causar ruído

Fernanda Young

 

 

F – Você imaginava ser quem você é?
F – Não. Nunca cogitei tornar-me mãe, por exemplo. Até os 25 anos de idade, eu não dirigia. Achava impossível reconhecer rapidamente o que é direita ou esquerda.
Tenho me esforçado para fazer viagens menos previsíveis. Como sou caseira demais, essa é a minha nova provocação. Em 2006, fui ao Peru conhecer as trilhas incas. E decidi que irei aprender francês. Mesmo na literatura, quesito em que sempre tive uma boa dose de auto-estima, jamais sonhei ter a minha obra publicada, e tantos leitores.

F – Por que você está deixando o cabelo crescer? Acha que conseguirá mantê-lo longo?
F – Não sei se o manterei longo. Mas temo que, com a idade, mesmo que ter a cabeça raspada nunca tenha sido uma opção estética elaborada – a questão é que, na maioria do tempo, não tenho nem tempo, nem felicidade, para cuidar de cabelo –, sei que parecer uma “careca supermoderna” fica ridículo. Odeio a possibilidade de me tornar rotulável e datada. Não gosto ter post-its grudados em mim. Não sou, nem nunca fui uma “mulher moderna”. Então quero um cabelo normal. Mas basta um dia torto para esse plano desandar.

F – Você é gay?
F – Não. Não consegui ser. Uma pena. Tenho uma impaciência enorme com as minhas dramaticidades e, apesar de reclamar bastante da ausência poética dos homens, definitivamente o fato de eles terem pouca leitura simbólica equilibra a minha chatice.

F – Quais são os seus vícios?
F – Sorine, Coca light, cerveja e pizza.

F – Você fez plástica?
F – Sim. Consertei os seios. E fiz pequenos retoques dermatológicos no rosto.

F – Você fala coisas que irritam. É sem querer, ou de propósito?
F – Eu falo coisas, e isso irrita. Também, “ora dando fora, ora bola”. Adoro entreter. Sou uma constante ameaça para a mesmice, e há quem não suporte isso. No momento em que tudo parece muito equilibradinho, nada como uma reclamação chata, um comentário incorreto. Além disso, a liberdade dos outros é mesmo irritante, quando você se sente preso em si mesmo. E mostrar-se irritado é quase um tabu: parece que você é um mau-caráter, caso assuma algum incômodo. Todo mundo parece querer disfarçar os seus males. Eu não, eu quero anunciá-los. Só que isso incomoda um tipo de gente. A ausência de ironia é uma coisa perigosa. O preconceituoso, por exemplo, não tem ironia alguma. Ele leva tudo ao pé da letra. Ter uma opinião contrária a ele, então, é como se fosse um ataque pessoal. Tenho respeito por todas as “vertentes de pensamento”. Ninguém precisa acreditar no que acredito. Mas insisto em defender o meu ponto de vista, através do humor ou da poesia. E os tolos se irritam, sim, um tipo de irritação burra, estagnada, acusando-me disso ou daquilo. Os ditos “sabedores culturais” daqui do Brasil são sabidamente pessoas sem senso de humor algum. Chega a dar pena. Para eles, eu não posso ser uma escritora de verdade, não é cabível. Só pode ser intelectual, no Brasil, quem se encaixa dentro de um perfil – sem graça, sem beleza, sem erros, etc. – exato. Eu não me enquadro, nem nunca quis me enquadrar. Então sou alvo de preconceitos. Agora, o que eu posso fazer? Nada. Vou continuar reclamando e incomodando os idiotas. Eles fingem que não me vêem. Mas é impossível não me ver. Sou um pesadelo para a caretice. E gostaria de ser um sonho brasileiro. Gostaria que entendessem como a minha carreira, integridade e humor são bons para a Língua Portuguesa. Tenho certeza que há um grande número de jovens escritores, por aí, que um dia se sentiram instigados pelo meu verbo e liberdade. Não adianta tentarem me ignorar, ou me esculhambar, ou me odiar. O Brasil é enorme e sedento por idéias. Não são os “coronéis culturais” do sudeste que ditam o que é ou não literatura. Não ligo para “essas caras tristes, fingindo que a gente não existe”.

F – Por que você saiu do Saia Justa?
F – Porque não gosto de estudar pautas. E porque conversa de mulher pode se tornar chata.

F – Você é assim tão irritada, ou isso é gênero?
F – Sou assim, um exagero para causar ruído. Para aliviar o outro, seja pela identificação ou pela rejeição.

F – O que você seria se não fosse escritora?
F – Seria uma escritora mesmo que não vivesse de ser escritora, não tem jeito. Gostaria de ser uma herdeira rica e não precisar ganhar dinheiro? Gostaria. Seria discreta, recolhida, não daria entrevistas, não seria uma pessoa pública. Não teria cara, só obra.

F – O Alexandre não fica de saco cheio de você, sendo assim, tão verborrágica?
F – Ele se diverte. Às vezes, sim, creio que ele fica de saco cheio; mas o que fazer? Agora é tarde.

F – Você já teve depressão?
F – Como disse o Jabor, não tive, tenho. A maravilha é saber reconhecer os seus recursos, e não se permitir viver nesse diagnóstico fechado. Acho até que a depressão pode ser uma qualidade. Um dom. Sou uma depressiva bem-sucedida. Prefiro mil vezes estar depressiva, do que eufórica. O ansioso não cria. O depressivo se recolhe num mundo de sensações sofisticadas e, se ele for um poeta, isso pode se tornar uma interessante ferramenta. Mas é claro que não gosto de estar triste, por isso sou cuidadosa. Faço exercícios, tenho melhorado a minha alimentação e o meu espírito. Já tomei remédios, vários. Hoje em dia, não tomo nada. É uma conquista. Nunca pensei que lidaria com a minha natureza melancólica sem me utilizar de meios de controle.

 
 
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REFLEXÕES...

O segredo de uma boa velhice não é outra coisa que um pacto honrado com a
solidão.
Gabriel García Márquez
escritor colombiano
que completa 80 anos
em 2007

 

 
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