usineiros pazzi

 
Ademir Furtado
Aleta Dreves (Acre)
Carlos Rodrigo Schönardie
Claudiom dos Santos
Deise Martins (São Paulo)
Lucas Colombo
Malu Cardinale
Márcia Schmaltz (China)
Raquel Figur (Inglaterra)
Ricardo Moresi (Alagoas)
+
Encontros Caóticos
Entrevista
Eu e mim mesmo
 

 

 

expediente
 

Diretora de Redação
Maria Luiza Cardinale Baptista (Mtb 6199/25/71)

Editor
Lucas Colombo

Webmaster
Maikel Lersch

Assistente de Comunicação
e Planejamento
Deise Tagiane

Usina Pazza é uma publicação da Pazza Comunicazione, destinada
à informação e análise
de temas relacionados
à comunicação e cultura
do Brasil e do mundo.

Os textos são de inteira responsabilidade
de seus autores. 

 
Entrevista
Arthur de Faria
 
Eu, Porto Alegre. Tu, Buenos Aires tás
Deise Martins, de Buenos Aires
 

     Talvez, em algumas cidades do Brasil, existam pessoas que nunca ouviram falar da talentosa musicalidade de Arthur de Faria, mesmo que ele esteja no cenário artístico há mais de dez anos. Natural de Porto Alegre, Arthur provavelmente é mais um exemplo de que os melhores músicos do nosso país são, primeiramente, reconhecidos no exterior. Arthur de Faria & Seu Conjunto já participaram de inúmeros festivais em outros países, onde estabeleceram, também, várias parcerias com músicos, orquestras sinfônicas e orquestras de câmara.

     Entre projetos e festivais, os músicos ligados a Arthur de Faria participaram do Porto Alegre em Buenos Aires - 2000; Brasil 2000 - realizado em Viena, Áustria, quando foi esboçado o repertório do disco Música pra Bater Pezinho ; Festival Internacional de Buenos Aires, em 2003; e Suis Possíveis - Alguns lados de um Sul, evento que envolveu cinco shows de artistas gaúchos no Sesc Pompéia, de São Paulo, em 2004.

     No mês de abril de 2006, Arthur de Faria & Seu Conjunto apresentaram Dois em Dois , ou seja, dois shows diferentes, em dois dias, no Teatro Renascença, em Porto Alegre - aliás, este foi o palco em que o músico se apresentou pela primeira vez, em 1996. No primeiro dia, o septeto fez o show Música pra Ouvir Sentado , com temas instrumentais, muitos destes com raízes em ritmos da região do Prata. Como convidado, participou o clarinetista Augusto Maurer. Algumas músicas do repertório já haviam sido gravadas ou foram compostas para trilhas de filmes. Outras eram inéditas. Estas devem fazer parte do quinto disco da banda, totalmente instrumental. No segundo dia de show, foi a vez de Música pra Bater Pezinho , título do último CD, lançado em 2005. O show contou com o reforço das cantoras Adriana Deffenti, Vanessa Longoni, Vivi Schäffer e Áurea Baptista. Além disso, trouxe uma novidade: a estréia da versão de Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula) , um dos destaques do Tributo a Odair José , que ganhou as páginas dos jornais e até matéria no Fantástico , programa da Rede Globo de Televisão, veiculado nos domingos à noite.

Foto: Eduardo Aigner


     Arthur de Faria & Seu Conjunto é composto pelos músicos: Sérgio Karam - sax alto e sax barítono; Julio César Rizzo - trombone; Adolfo Almeida Jr - Fagote, Acordeom e Zurna (oboé turco); Marcão Acosta - Guitarra e Bandolim; Clóvis Boca Freire - Baixo Elétrico de 6 e Baixo Acústico; Ricardo Arenhaldt - Bateria e Percussão; e Arthur de Faria - Voz, Piano e Acordeom.

Foto: Divulgação
Capa do último Cd de Arthur,
"Música pra Bater Pezinho"

     Do CD Música pra Bater Pezinho, é interessante comentar uma canção, composta por Arthur de Faria, que se chama Tu e Eu - II, a Omissão. A letra começa com o seguinte trecho:

"Eu, Chico / Tu tá Caetano
Eu, Vítor / Tu, Nei
Eu, Borges / Cotázar tu tás
Tutatis, eu / Tu, Zeus
Eu sempre Fito / Tu Charly és el mejor
Yo, Piazzolla / Gardel, tu..."

     Apesar de a idéia de entrevistar Arthur de Faria já existir há algum tempo, foi durante o mês de maio deste ano, quando eu me encontrava em Porto Alegre, que recebi a notícia de que ele faria show em Buenos Aires, no mesmo período. O músico veio à capital argentina para apresentar-se com seu amigo trombonista Julio Rizo, no Jazz Voyer , e fazer outros contatos com músicos locais. O desencontro proporcionou, assim, o jogo de palavras do título desta matéria. Algum tempo depois, porém, a esperada entrevista aconteceu.


Usina Pazza - Quais seriam as principais influências ou referências musicais para Arthur de Faria & Seu Conjunto ?
Arthur - Bah. Baaaaaah . Cada vez mais, tudo (risos) . Ou quase tudo. Eu componho quase todo o material da banda e gosto cada vez de mais coisas. Como diria o Fito Paez, eu estou sempre " juntando información/querendo ser otro ". Sou um inquieto curioso. Agora, em fevereiro, estive no extremo leste europeu e pronto: já gostava muito das poucas coisas que eu conhecia dos Bálcãs. Voltei doido pela música búlgara e pela música turca, trouxe zilhões de CDs. Já estou completamente contaminado, e isto já está presente nas músicas e nos arranjos novos que a gente está ensaiando. E é assim sempre: com música eletrônica, com jazz, com música erudita, com música tradicional brasileira ou latinoamericana, com tango... Eu tenho fases de ouvir, ouvir, ouvir um determinado gênero, e acaba ficando muita coisa de cada mergulho desses. Isso, eu. Aí tu multiplicas por sete, porque cada integrante da banda traz muito da sua informação, da sua formação. O Karam é um cara do jazz, e pouca coisa mais. O Marcão é um cara do rock, metaleiro. E por aí vai. O Julio e o Rick andam apaixonados pela música regional do Prata, e isso tem muito a ver com o trabalho novo que a gente está montando, todo de tangos, milongas, habaneras, xotes, compostos por mim ou usados como elementos em arranjos de temas, de gente como Thelonius Monk ou Charles Mingus. Na página, clicando no nome de cada um de nós, aparece a lista dos discos que fizeram a gente ser o que é. Aí, tu vais entender mesmo a radicalidade das diferenças e semelhanças entre a gente. O que mais chega perto de um consenso é Arrigo Barnabé, Milton Nascimento e Beatles. Mesmo assim, tem quem morra de amores por cada um deles.

Usina Pazza - Pode-se dizer que você é um músico versátil, eclético, que cultiva o prazer de descobrir novos ritmos, mas que tem uma predileção pelo jazz?
Arthur - Sim, pra primeira parte, não, pra segunda. O jazz é um elemento importante na sonoridade do Arthur de Faria & Seu Conjunto , mas muito pelo Boca, pelo Karam, pelo conceito da banda que, em muitos pontos, tem a ver com os grupos que o Charles Mingus montava no jazz: arranjos escritos, mas muito abertos para criação. Mas se tu fores ver nos outros trabalhos que eu faço, como o Duo Deno - que eu tenho com o Fernando Pezão, dos Papas da Língua -, ou as trilhas de cinema e teatro, o jazz não é um elemento presente. Isso é muito uma coisa da banda , mesmo. E nem em casa é o que eu mais ouço. Tenho ouvido muito Charles Mingus e Miles Davis ultimamente, mas não é o normal. Aliás, acho que não tem um gênero que eu ouça mais que os outros, assim, pensando em larga escala.

Usina Pazza - Na divulgação dos shows deste ano, no Teatro Renascença, uma informação me chamou atenção: o fato de vocês terem tantos shows diferentes - Afinidades Eletivas, Meu Conjunto Tem Concerto, Música pra Bater Pezinho, etc. - ter transformado o conjunto num grupo de repertório, com diferentes parcerias. Como é que isto funciona? Quais são estas parcerias?
Arthur - Bueno , foi acontecendo aos poucos, na verdade. Primeiro, a gente só tinha um show, o Música pra Gente Grande , que era o show do primeiro disco. Aí, eu comecei a escrever umas coisas pra grupo e orquestra , e a gente começou a fazer shows em parceria com diferentes orquestras do Rio Grande do Sul, que resultaram no nosso terceiro disco - o Flicts nunca teve show, tem a peça, cuja trilha é gravada. Ao mesmo tempo, começamos a preparar o show novo de canções, que daria no CD Música pra Bater Pezinho . Então, tínhamos os dois: um só com a banda - Música pra Bater Pezinho -, outro com orquestra - Meu Conjunto Tem Concerto . Foi quando nos chamaram pra fazer o show de inauguração de um importante centro cultural de Porto Alegre, o Santander Cultural. E a idéia era fazer parcerias: teve show do Vitor Ramil com o Chico César, do Hique Gómez com os argentinos do Cuatro Vientos, e... nós com a cantora paulista Cida Moreira, que a gente admirava há tempos. Seguimos com o show, de tão bom que ficou. Aí, já tínhamos três shows diferentes. E aí, nos encomendaram, do Sesc Paulista, em São Paulo - onde só rolava show instrumental - um show nesse estilo. Montamos um repertório só instrumental, e, mais uma vez, ficou tão legal que a gente seguiu com ele. Batizou de Música pra Ouvir Sentado e, provavelmente, vai ser o próximo CD e/ou DVD. Pronto: quatro shows. E temos feito todos, alternadamente. São umas 50 músicas diferentes, no repertório. Uma loucura!

Em 1996, Arthur de Faria & Seu Conjunto lançaram o disco "Música pra Gente Grande" e, em 2002, "Meu Conjunto tem Concerto".

Usina Pazza - Você esteve, recentemente, em Buenos Aires, apresentando-se com Julio Rizzo. Como foi a experiência? Você sente o público portenho curioso, mais receptivo, por exemplo, às novidades musicais e a músicos não locais?
Arthur - O público em Buenos Aires sempre foi incrível com a gente. É uma cidade que me fascina absolutamente, desde criança. Tenho conhecido outras cidades também muito interessantes - muitas delas, tocando: Paris, Budapeste, Praga, Istambul, Olinda, Sofia... E Buenos Aires segue me fascinando absolutamente, me encantando, me enamorando. Assim como os portenhos. Fico chateado com brasileiros que falam mal de argentinos. Quero distância de gente assim. Ainda este ano, nesta viagem, depois de todas as entrevistas que eu dei, do show que estava lotado, do debate de que eu participei, das dezenas de amigos que eu revi, nessa viagem, me emocionei, de novo, muitas vezes. Essa cidade é muito generosa comigo. É a única cidade pela qual eu trocaria Porto Alegre. O show com o Julio foi uma experiência nova e muito boa. Nós nunca tínhamos tocado sozinhos, e foi bárbaro. Ele, além de tocar muito - estava dando um Máster Class pra alguns dos maiores trombonistas da Argentina -, é um baaaaita performer , rouba a cena o tempo todo. Não era um show meu com ele, era um show nosso. Às vezes, dele (risos) . E também foi bárbaro que a gente recebeu, pra umas músicas, um trio de trombonistas de lá, o 3Bay, formado por pai - o maior trombonista da Argentina -, filho e filha. Arrasaram. O único senão foi o público, que era meio estranho. Desde as quatro da tarde, os ingressos estavam esgotados, mas era num clube de jazz caríssimo, num hotel idem, na Recoleta. Era um público bem mais frio do que eu estou acostumado. No começo, foi estranho, quase pedi pra chacoalharem as jóias (risos) . Mas, no fim, parece que gostaram. Demos vários bis.

Usina Pazza - Você já manifestou algumas vezes ter um vínculo afetivo e uma admiração pelas terras argentinas. O culto aos cafés de Buenos Aires, às "medialunas", aos músicos e ao povo argentino... desde quando vem essa paixão?
Arthur - Bom, como eu já disse antes, desde criança. Na verdade, desde antes (risos) . Meu avô e minha avó iam muito a Buenos Aires, meus pais também... E a literatura argentina e o cinema argentino foram e são muito importantes pra mim, pra minha formação. Meu escritor preferido, sem lugar a dúvidas, é o Borges. E, entre meus preferidos, há muitos argentinos: Cortázar, Arlt, Bioy-Casares. Do Borges, eu li todos os livros "oficiais". Do Cortázar, quase todos. E na música, nossa: desde o rock clássico do Charly, Fito, Spinetta, Almendra, até coisas mais novas, como o Árbol, as meninas do No Lo Soporto ou mesmo a Pequeña Orquestra Reincidentes. Desde o tango clássico de Gardel, até minha obsessão pelo Piazzolla, passando pelo Pugliese, o Salgán, o Troilo, Goyeneche, e muitos novos: La Chicana, Pablo Mainetti, as coisas de tango do Adrián Iaies... E folclore , desde Mercedes até Liliana Herrero, Mariana Baraj, Silvia Oriondo, Chango Spasiuk, Chango Farias Gomes, o meeeestre Leguizamón, etc., etc., etc... Eu ouço muita, muita, muita música argentina. Omar Gianmarco, Alberto Muñoz, Puente Celeste, Axl Krieger, Kevin Johanssen, Santiago Vasquez, Mono Fontana... Jesus, a lista não vai acabar nunca!

Usina Pazza - Falando um pouco de um outro lado do Arthur , como surgiu a idéia de você ser apresentador da rádio Pop Rock e participar do aclamado programa
Cafezinho ?
Arthur - Na verdade, foi o absoluto acaso. Nunca fui, não sou e acho que nunca serei um ouvinte de rádio. Mas aí, estava desempregado, depois de trabalhar como jornalista em jornais e revistas. Pintou uma vaga na rádio... uma coisa leva à outra. Um dia, a gente estava no ar, fazendo o programa: seis dos caras da rádio onde eu trabalho. E lá se vão nove anos. E cada vez mais gente ouve o programa! É espantoso. Mas o curioso é que esses ouvintes não vão aos meus shows, na sua imensa maioria. Não há transferência de público. Vai entender...

Usina Pazza - Em 2006, o que vem por aí na agenda? Música pra Bater Pezinho vai para o Mercat de Musica Viva de Vic , em Barcelona? Depois vocês tocam em Campinas num festival de jazz? Conte um pouco da programação...
Arthur - Sim, muitas coisas boas. O Vic é um festival bárbaro, aberto ao público, mas voltado principalmente para os 1200 jornalistas, produtores e programadores de festivais do mundo todo que vão lá conhecer trabalhos novos. E pintou como? O Manel Montañés, diretor do evento, viu o Arthur de Faria & Seu Conjunto tocando em Buenos Aires, no 4.° Festival Jazz y Otras Musicas , em maio do ano passado. A gente vai apresentar lá o Música pra Gente Grande , na mesma noite e no mesmo palco que a Pequeña Orquestra Reincidentes, ora veja! Além disso, em agosto, a gente mostra a versão turbo do Música pra Ouvir Sentado nesse projeto de jazz do (Espaço Cultural) CPFL, em Campinas, que tem, entre outros, Hermeto Paschoal e João Donato. E, no mesmo fim-de-semana, a gente toca num dos palcos mais bacanas de São Paulo, o Auditório Ibirapuera, desenhado pelo Niemeyer e inaugurado este ano, no meio do Parque do Ibirapuera. Vamos fazer, a convite dos caras, o Música pra Bater Pezinho, com todos os convidados do disco - paulistas, mineiros, um pernambucano -, mais amigos antigos, como o pianista Benjamim Taubkin, e novos, como o popstar Odair José! Ufa!

Usina Pazza - Obrigada, Arthur.
Arthur - Imagina, eu que agradeço! Beijão!

 
 
 
 

 

 

Pare & Pense

galeria

Produto da Rua

Nas fotos de
Romulo Lubachesky,
os trabalhadores das
ruas de Porto Alegre
como você nunca viu.


REFLEXÕES...

O segredo de uma boa velhice não é outra coisa que um pacto honrado com a
solidão.
Gabriel García Márquez
escritor colombiano
que completa 80 anos
em 2007

 

 
Pazza Comunicazione, 2006
usina.pazza@pazza.com.br